segunda-feira, agosto 21, 2006

Rafael de Oliveira Rodrigues

Sobre a construção da identidade brasileira

 

Este ensaio procura discutir a questão da identidade a partir de dois pontos: Primeiro veremos a identidade individual partindo da família e das relações cotidianas. Em seguida, vamos analisar a identidade nacional brasileira, neste ponto vamos deter a maior parte da nossa atenção. Refletiremos a identidade nacional à luz do universo da vida cotidiana, através de grupos de referência e os interesses do Estado em moldar uma identidade nacional. Doravante, faremos uma discussão sobre a crise de identidade a partir da identidade nacional.

A construção da identidade individual ocorre, primeiramente, no seio dos grupos de referência, ou seja, a família é o primeiro grupo em que se constrói a identidade. Biografia, relações sociais e cultura fecham o ciclo no processo de construção da identidade individual. Em seguida - depois do reconhecimento do "eu" como sujeito de um grupo de referência, devido as suas condições sócio-culturais, afinidades e interesses em comum - o grupo de referência fornece ao "eu" uma identidade.  Falar da construção da identidade, no Brasil,é um tema de suma complexidade, pois as diferenças étnicas, geográficas e econômicas do país são enormes. "Não é novidade que o Brasil não tem linhas de demarcações nítidas entre populações em termos de características étnicas, Lingüísticas, culturais ou históricas. Adquirimos com isto várias identidades nacionais (de classe, ocupacional, cultural, religiosa) e chegamos em casos ideais a uma personalidade que representa um equilíbrio entre todas elas"( ROUANET ).

"Pesquisas mostram que para a população negra, uma eventual origem refere-se a seu passado africano longínquo, referência que, às vezes, é muito pouco utilizada devido ao processo de escravidão no Brasil. Já para as populações de imigrantes mais recentes (Alemães, italianos e Japoneses) que chegaram ao Brasil a partir da virada do século XIX e XX até a segunda guerra mundial, o termo origem se refere ao país de origem dos pais e dos avós. Os dados mostram que algumas pessoas entenderam o termo origem em termos raciais, outras em termos de religiões e cidades de origem, ainda que a maioria tenha entendido a questão em termos de nacionalidade"( SCHWARTZMAN). Negros, Africanos, Índios, descendentes de Portugueses, isto é, as populações mais antigas afirmam com maior convicção sua identidade brasileira, entretanto, grupos de imigração mais recente relutam em afirmar essa mesma identidade.

"A década de 60, precisamente o ano de 64, com a tomada do poder pelos militares, o Brasil se insere no processo de internacionalização do capital"(ORTIZ).Consolidado no Brasil o capitalismo tardio, o Estado autoritário trata de fortalecer o parque industrial de produção de cultura e de bens culturais, evidentemente com auxílio da censura para coordenar e filtrar esta produção. Cabe salientar que a censura atinge a obra, mas não a generalidade da produção, isto é, determinadas músicas não passam pela censura, mas muitas outras passam. Esta mesma censura afirmava e incentivava outro tipo de produção em prol dos interesses do Estado - construir um discurso de caráter político acerca da identidade nacional - com o objetivo de integrar o vasto território nacional. Daí surgem as primeiras idéias a respeito da felicidade do povo brasileiro, de como o carnaval é uma festa exacerbadamente brasileira, idéia ótima para a indústria do turismo. Aproveito esta passagem para fazer um observação particular a respeito do carnaval de Olinda: O carnaval expressa a identidade nacional e constrói culturalmente a reputação da cidade de Olinda como a "cidade do carnaval," mas o excesso de pessoas e barulho na cidade contribui para a degradação do patrimônio histórico que, também, contribui para construção da identidade local, logo o carnaval, que constrói a identidade da cidade, também destrói a mesma identidade, mas esta é outra discussão.

Os atributos da nossa identidade nacional, samba, futebol, carnaval, são apenas atribuições simbólicas, que emanam das especificidades de determinados grupos e por força das instituições do Estado. Atributos que, sem a participação das classes desfavorecidas na sua construção, transformaram-se em pilares da identidade nacional. Em outras palavras, esta noção de identidade deixa evidente as próprias conjunturas sociais de domínio de classes sobre classes ao longo das quais foi sendo moldada a noção de identidade nacional. Com os movimentos da contra cultura da década de 60, tendo como porta bandeiras Caetano e Gil (atual ministro da cultura que, na época, pregava:" a Cultura a civilização, elas que se danem"), questionou-se o fato de, durante todo processo de construção da identidade nacional, nunca ter se pensado numa cultura do povo e sim numa cultura para o povo.

            "A identidade nacional contribui indiretamente no processo de reconhecimento do indivíduo. Por exemplo: Um indivíduo (brasileiro) que mora nos EUA, gosta de futebol e se considere um apaixonado pela seleção brasileira, provavelmente tal esporte fez parte de sua infância e adolescência. Quando ele assiste algum jogo da referida seleção, é possível que evoque lembranças de sua vida no Brasil, isto é, o indivíduo pode, em certas situações adentrar na sua biografia através de um grande grupo, que faz parte da identidade nacional"( LUIZ, Lindomar Teixeira). Para alguns autores, é possível que haja uma crise relacionada à identidade nacional devido ao processo de globalização. O processo de globalização tende a integrar vários países sob diversos pontos de vista, inclusive o cultural. Antes do atual processo de globalização existia uma territorialidade, que restringia e evidenciava as especificidades em termos culturais. "A globalização das sociedades e a mundialização da cultura rompe com esta integridade espacial, tornando cada vez mais difíceis discernir os limites de cada povo ou cultura, provocando uma diluição de fronteiras. A cultura nacional, que até então detinha o monopólio de definição do sentido da vida coletiva, encontra-se desafiada por uma dimensão que se forja fora de seu alcance. Muito da crise de identidade das sociedades contemporâneas decorrem deste fato, isto é, as identidades nacionais são abaladas por movimentos de globalização"(ORTIZ). Um exemplo de crise é o dos japoneses que vivem no Japão. Enquanto no Brasil eles se reconhecem como brasileiros, mesmo sendo chamados de japoneses, no Japão não se identificam com os japoneses e têm dificuldades de se identificar como brasileiros.

            Assim, a construção da identidade nacional passa por questões e ideológicas e não dispõe de evidências concretas. A mídia, a televisão principalmente, ajuda a construir a idéia de que existem elementos essencialmente nacionais. Juntamente com ela, o Estado (com suas instituições, um sistema jurídico, um sistema escolar e sem dúvida com a existência da língua) ainda exerce um peso enorme neste processo de construção da identidade nacional.

 

Referências Bibliográficas

ORTIZ, Renato.Cultura brasileira e identidade nacional. SP brasiliense. 1994./ A moderna Tradição Brasileira, Cultura brasileira e indústria cultural. Ed. brasiliense 1988.

LUIZ, Lindomar Teixeira. A identidade individual e nacional. Revista científica do oeste paulista.

ROUANET, Sérgio Paulo. Saudades de Roma. Caderno E mais, folha de São Paulo, fevereiro de 2000.

SCHWARTZMAN, Simon. Fora de foco: Diversidade e identidades étnicas no Brasil. 1999.