terça-feira, agosto 29, 2006

Marco Aurélio Acioli Dantas.

 

 

Identidade Nacional Brasileira

 

"... a identidade nacional[...]é uma construção simbólica."(Ortiz, 1986: 7)

 

Quando nos recorremos a questão da identidade brasileira, notamos o rumo o qual esse ponto se envereda, que é o caminho da busca pela história do povo brasileiro que instintivamente se vincula a um desdobramento da história européia. A partir daí notamos a presença de uma pressão exercida pelas nações detentoras do domínio, em escala cultural, sobre os países periféricos. O que chama atenção nesse fato, é a consciência, atualmente, da noção de uma cultura nacional entrelaçada com culturas de outras civilizações, o que permite a construção de uma história da humanidade. E é esse entrelaçamento que vai possibilitar a retomada da história de cada povo e suas relações com outras civilizações, porque "toda identidade se define em relação a algo que lhe é exterior, ela é uma diferença" (Ortiz, 1986: 7), e à medida que uns(colonizadores) passam a ter esse tipo de interação(senhor-escravo) com os colonizados, eles começam a influir na própria "imagem" deste em torno de sua formação nacional.

Da-se aí a necessidade de se entender o período da atividade colonizadora no Brasil, conquanto todo o tempo em que permaneceu aqui, a metrópole portuguesa transplantou(não raro impôs) seus costumes(papel da mulher, sistema político, e outras dimensões em nível cultural) para nossa sociedade.

De início, o modo o qual nos prestamos à metrópole foi o de fornecedor de mercadorias para o enriquecimento da Coroa:

Se vamos a essência da nossa formação, veremos que na realidade nos construímos para fornecer açúcar, tabaco,[...]ouro, diamantes,[...]algodão, e em seguida café, para o comércio europeu[...]. O "sentido" da evolução brasileira[...]ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização(Prado Júnior, 1986: 31-32)

Depois de alguns séculos vemos que a condição de país periférico não se modificou muito, e o Brasil ainda resiste em seguir os passos da sociedade européia. Devido a todo o laço existente entre elas, a busca pela identidade vai se dar através do conhecimento de outros países estrangeiros que aqui estabeleceram a dominação.

Alguns encontraram a "essência da brasilianidade" na mestiçagem e na heterogeneidade e é aqui que entra o mito fundador da identidade brasileira, o "mito das três raças"(tendo Gilberto Freyre como grande alicerce).

Outros autores preferiram diferentes abordagens:

Já se disse, numa feliz expressão, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade- daremos ao mundo o "homem cordial" [expressão de Ribeiro Couto]. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam com efeito, um traço definido do caráter brasileiro(Holanda, 1982: 106)

Traços gerais característicos [...]bases materiais da sociedade[...]. É o conjunto desses fatores, que podemos chamar de infra-estrutura , que, a nosso ver, condiciona e/ou determina os traços característicos somáticos e psicológicos de um povo ou grupo étnico-chamado de caráter nacional(Bazarian, 1991: 23).

Na crítica da razão tupiniquim, Roberto Gomes(1980)ainda em torno do pensamento nacional analisando características tais como ecletismo, concórdia, o jeito, o apego a uma razão ornamenta. A crítica composta por ele vai contra a nossa subserviência ao pensamento europeu(Geraldo Soares, 2003: 3)

No que tange a esse mito , sabemos que foi muito influenciado pelas idéias de Gobineau, Buckle e Couty.Mais precisamente , devido ao diagrama construído por Gobineau,foi possível estabelecer a dinâmica entre as raças , podendo assim mescla-las("inferiorizando-as", segundo ele).

Com o advento da emancipação brasileira no século XIX, o "caldeirão racial" que vinha borbulhando teve sua chama apagada, mas com o Movimento Abolicionista ele explodiu. E com a Abolição ameaçando derrubar a economia e a estrutura social do país, foi preciso uma nova ideologia para "rechear" as cabeças da população(pois, toda a ideologia portuguesa, e católica trazida pra cá durante a colonização, agora já não surtia efeito), uma nova "maneira" de libertar os escravos, porém deixando-os marginalizados e "sem condições de libertar-se social e cientificamente."(DaMatta, 1987: 69).

O mito serviu para turvar as mentes brasileiras, mostrando a elas que ao aportarem e aqui permanecerem, os portugueses(e depois os próprios europeus e asiáticos)junto com os índios e os negros trazidos da África, se harmonizaram e formaram o povo brasileiro. Isso tudo numa perspectiva assimilacionista e sem conflito.

Contudo, podemos perceber ainda hoje, a existência de uma sociedade mergulhada no preconceito e na hierarquização, representada na multifacetada "fábula das três raças". Essa foi  a base da construção da identidade brasileira que permeia todo o nosso edifício ideológico-cultural.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

-BAZARIAN, Jacob. Porque nós, brasileiros, somos assim?: os traços característicos dos brasileiros, suas causas, suas conseqüências. 4ª ed. São Paulo, Alfa-Omega, 1991.

-DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro, Rocco, 1991.

-GOMES, Roberto. Crítica da razão tupiniquim. 4º ed. São Paulo, Cortez, 1980.

-HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 15ª ed. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1982.

-ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 2ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1986.

-PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 19ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1986.

-SOARES, André Geraldo. Comportamento ambiental da identidade brasileira: o desenvolvimento com o qual nos envolvem. Florianópolis, 2003.