quinta-feira, agosto 10, 2006

Leituras II

"Brasil, Meu Brasil Brasileiro:

Notas sobre a Construção da Identidade Nacional",

de Maria Alice Rezende Gonçalves

Editora: Quartet - Ano: 1999 - ISBN: 8585696230



Este livro reúne seis textos: "Brasil, meu Brasil brasileiro: notas sobre a construção da identidade nacional", de Maria Alice Rezende Gonçalves (professora da Faculdade de Educação da UERJ); "Cidadania: uma trajetória de longo curso", de Cláudio de Carvalho Silveira (doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp); "A educação e os afro-brasileiros: algumas considerações", de Ahyas Siss (professor da Faculdade de Educação da UFF); "Escola, homogeneidade e diversidade cultural", de Maria de Lourdes Tura (professora da Faculdade de Educação da UERJ); "Educação ambiental e cidadania", de Maria do Carmo Maccariello (professora da Faculdade de Educação da UERJ); e "Um convite à interatividade e à complexidade: novas perspectivas comunicacionais para a sala de aula", de Marco Silva (professor da Faculdade de Educação da UERJ .

Brasil, meu Brasil brasileiro: notas sobre a construção da identidade nacional.

Resenha feita por Amanda O. Rabelo

A autora nos descreve no texto a formação do mito fundador do povo brasileiro: a miscigenação “harmônica” das três raças (índia, negra e branca) e suas conseqüências para o Brasil. A formação da identidade do povo brasileiro é algo imaginado, pois precisa-se de uma “précondição” para entendermos e constituirmos o Brasil como nação. A cultura brasileira é construída em torno desse paradigma das três raças e, assim, o pensamento em geral, tanto do senso comum quanto dos acadêmicos, permeia esse paradigma.

Na nossa fábula de formação forma-se um triângulo hierarquizado entre as raças branca, negra e índia (não tão hierarquizado assim, pois o branco fica no topo do triângulo), aonde pode haver a miscigenação das raças, diferente, por exemplo da fábula dos EUA, aonde não há contato entre as raças. Em um histórico da sociedade brasileira a autora demonstra como se formou esse mito.

Primeiramente com a sociedade escravocrata e a Independência (um fato que não nasceu de uma preocupação nacionalista, portanto não se pensou um projeto unificador da população) houve uma exaltação do Índio como raiz da sociedade, o que não excluía a importância das outras raças e culturas. Após a abolição e o incentivo à imigração européia passa-se a valorizar o imigrante (arianismo) trabalhador e a desvalorizar as outras raças que se “entregavam à preguiça”, há, pois, uma desvalorização da mestiçagem que seria um problema para a construção de uma unidade nacional. Porém nessa época a elite começou a se preocupar com a ausência de uma unidade nacional, este seria nosso maior problema. Com a idéia de um Brasil moderno (1930) um projeto de autenticidade nacional passa a ser implementado com base na mestiçagem do povo brasileiro como demonstração de unidade. O livro “Casa Grande & Senzala” de Gilberto Freire é um representante importante dessa valorização da mestiçagem (o mestiço seria superior) e da “democracia racial”. A autora descreve Macunaíma como “símbolo do brasileiro” para essa fábula, pois ele é índio, negro e branco, ao mesmo tempo, mas na verdade não é nenhum deles. E acaba como branco, loiro e de olhos azuis (valorização maior do branco). O samba também é valorizado, pois passa a ser um espaço de integração da elite com os outros grupos culturais.

Com o Estado Novo essa valorização é exaltada com uma campanha de nacionalização, ocorre também a nacionalização do ensino. Essa exaltação tem êxito, pois acontece, então, a unidade lingüística e de identidade ao brasileiro. Ao mesmo tempo essa valorização encobre uma sociedade hierarquizada onde predominam as desigualdades raciais e sociais e o preconceito. A nossa escola, com a formação do mito do povo brasileiro, passa a reforçar essa valorização da mestiçagem, demonstrando o triângulo das três raças, suas re-divisões (mulato, mameluco, cafuzo), reforçando os símbolos, as datas, etc.

Os livros didáticos contam a nossa fábula, apresentando os índios como nativos, os negros como escravos, os portugueses como descobridores e os imigrantes como marco de mudança nas relações de produção. As fronteiras brasileiras são apresentadas e dentro delas há um povo. As discriminações, conflitos históricos e desigualdades são omitidos. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) vêm reforçar a preocupação com uma sociedade democrática e com a formação de cidadãos, porém apresenta a sociedade brasileira como pluriétnica e pluricultural, admite a existência de discriminações, injustiça e preconceito, admite que o sistema brasileiro de ensino não têm oferecido as mesmas oportunidades de ensino a todos os brasileiros, e, admite também a falta de democracia racial. Os PCNs sugerem que uma educação voltada para a cidadania superaria estes problemas.

A globalização vem colocar mais uma interrogação nesse mito com o fim dos Estados-Nações, pois não haveria convivência harmônica dos grupos de uma nação. Porém a globalização tem aumentado as desigualdades de classe e trazendo uma tendência à integração do povo.