quarta-feira, agosto 09, 2006

Leituras I

Atenção!
Leitura obrigatória:

LEITE, DANTE MOREIRA
CARATER NACIONAL BRASILEIRO, O
UNESP 2003


O professor Dante Moreira Leite fez sucesso de crítica com seus ensaios, sem ter se concentrado em um único campo do saber. Não teve tempo para organizar sua obra, pois morreu aos 48 anos, de infarto, em 1976, quando dirigia o Instituto de Psicologia da USP. Obcecado pela clareza, viveu insatisfeito com o que produziu. Vagou pelas franjas das disciplinas e trabalhou ao mesmo tempo em literatura, psicologia, tradução e ficção. Nem tudo saiu em livros. Publicou cinco, entre 1954 e 1972. Só agora eles podem ser examinados em conjunto, pois ganham uma edição crítica. Dante, espécie de curinga dos estudos brasileiros, deve ser finalmente julgado pelo público. O círculo acadêmico já louvou suas façanhas. Os dois volumes que chegam às livrarias são os que lhe forneceram o prestígio na universidade e entre pares literários: Psicologia e Literatura (1965) e O Caráter Nacional Brasileiro (1969). O primeiro examina o contato entre os dois campos. Uma obra pioneira, segundo o crítico Alfredo Bosi: 'Espanta-me a construção desse livro tão orgânico, apesar de mexer com matéria tão vasta e tão díspar'. Dotado do mesmo rigor, O Caráter Nacional é uma revisão da tese de doutorado defendida na USP em 1954. Ela desmonta estereótipos da nacionalidade formulados pelos escritores e teóricos, do índio sem alma dos jesuítas ao 'homem cordial' do século XX de Sérgio Buarque de Holanda. Para o poeta Drummond de Andrade, tratava-se de um 'livro fundamental'. Até o fim do ano aparecerão mais três títulos: O Amor Romântico e Outros Temas (1964), Psicologia Diferencial (1966) e O Desenvolvimento da Criança (1972). Se os dois últimos mostram empenho na psicologia, O Amor Romântico ilustra o método do autor com análises de obras de José de Alencar e Guimarães Rosa. A nova edição traz dez textos raros, entre eles 'O Caráter Nacional Brasileiro e o Futebol' (1955). Ali, Dante ataca Gilberto Freyre e rechaça a noção que o sociólogo pernambucano desenvolve de um suposto 'mulatismo flamboyant' como traço do jogador brasileiro, responsável pelo sucesso da Seleção na Copa de 1938. Se mulatismo fosse um traço, contesta Dante, ele deixou de fazer sentido quando treinadores uruguaios introduziram as táticas no Brasil nos anos 30. Mais: a Seleção de 1938 era formada na maioria por negros e brancos. Este é um entre tantos exemplos do tipo de ironia demolidora que ele inaugurou em O Caráter Nacional. A fortuna crítica do ensaio é vasta. Antonio Candido elogiou-o por redescobrir Manuel Bonfim como sociólogo da pobreza. O brasilianista Thomas Skidmore baseou-se nele para discorrer sobre raça e intelectuais do século XIX. Adversário do pensamento determinista, com boa musculatura mental para reexaminar nomes e idéias consagrados, ele também sofreu ataques. Como os do historiador Carlos Guilherme Mota, que denunciou no autor a pretensão de 'superação ideológica' por meio de um aparato científico 'ideológico'. O fato é que, tentando despir-se de dogmas, Dante constatou que o nacionalismo estava morto no mundo após a Segunda Guerra Mundial. A identidade nacional, para ele, deveria ser ato voluntário de um povo livre, não uma construção acadêmica, inspirada pelos poderes públicos - como o nacionalismo cujo berço foi o Estado Novo de Vargas. Ao subverter a mentalidade tradicional, Dante ocupou um lugar próprio entre os colegas. Está a merecer uma releitura. O professor Dante Moreira Leite fez sucesso de crítica com seus ensaios, sem ter se concentrado em um único campo do saber. Não teve tempo para organizar sua obra, pois morreu aos 48 anos, de infarto, em 1976, quando dirigia o Instituto de Psicologia da USP. Obcecado pela clareza, viveu insatisfeito com o que produziu. Vagou pelas franjas das disciplinas e trabalhou ao mesmo tempo em literatura, psicologia, tradução e ficção. Nem tudo saiu em livros. Publicou cinco, entre 1954 e 1972. Só agora eles podem ser examinados em conjunto, pois ganham uma edição crítica. Dante, espécie de curinga dos estudos brasileiros, deve ser finalmente julgado pelo público. O círculo acadêmico já louvou suas façanhas. Os dois volumes que chegam às livrarias são os que lhe forneceram o prestígio na universidade e entre pares literários: Psicologia e Literatura (1965) e O Caráter Nacional Brasileiro (1969). O primeiro examina o contato entre os dois campos. Uma obra pioneira, segundo o crítico Alfredo Bosi: 'Espanta-me a construção desse livro tão orgânico, apesar de mexer com matéria tão vasta e tão díspar'. Dotado do mesmo rigor, O Caráter Nacional é uma revisão da tese de doutorado defendida na USP em 1954. Ela desmonta estereótipos da nacionalidade formulados pelos escritores e teóricos, do índio sem alma dos jesuítas ao 'homem cordial' do século XX de Sérgio Buarque de Holanda. Para o poeta Drummond de Andrade, tratava-se de um 'livro fundamental'. Até o fim do ano aparecerão mais três títulos: O Amor Romântico e Outros Temas (1964), Psicologia Diferencial (1966) e O Desenvolvimento da Criança (1972). Se os dois últimos mostram empenho na psicologia, O Amor Romântico ilustra o método do autor com análises de obras de José de Alencar e Guimarães Rosa. A nova edição traz dez textos raros, entre eles 'O Caráter Nacional Brasileiro e o Futebol' (1955). Ali, Dante ataca Gilberto Freyre e rechaça a noção que o sociólogo pernambucano desenvolve de um suposto 'mulatismo flamboyant' como traço do jogador brasileiro, responsável pelo sucesso da Seleção na Copa de 1938. Se mulatismo fosse um traço, contesta Dante, ele deixou de fazer sentido quando treinadores uruguaios introduziram as táticas no Brasil nos anos 30. Mais: a Seleção de 1938 era formada na maioria por negros e brancos. Este é um entre tantos exemplos do tipo de ironia demolidora que ele inaugurou em O Caráter Nacional. A fortuna crítica do ensaio é vasta. Antonio Candido elogiou-o por redescobrir Manuel Bonfim como sociólogo da pobreza. O brasilianista Thomas Skidmore baseou-se nele para discorrer sobre raça e intelectuais do século XIX. Adversário do pensamento determinista, com boa musculatura mental para reexaminar nomes e idéias consagrados, ele também sofreu ataques. Como os do historiador Carlos Guilherme Mota, que denunciou no autor a pretensão de 'superação ideológica' por meio de um aparato científico 'ideológico'. O fato é que, tentando despir-se de dogmas, Dante constatou que o nacionalismo estava morto no mundo após a Segunda Guerra Mundial. A identidade nacional, para ele, deveria ser ato voluntário de um povo livre, não uma construção acadêmica, inspirada pelos poderes públicos - como o nacionalismo cujo berço foi o Estado Novo de Vargas. Ao subverter a mentalidade tradicional, Dante ocupou um lugar próprio entre os colegas. Está a merecer uma releitura.
(Fonte: Livraria Cultura)