quinta-feira, agosto 10, 2006

Leandro de Fontes Barbosa

A Identidade Nacional Brasileira

Podemos tomar a questão da identidade nacional e correlacioná-la com as necessidades ideológicas na formação dos Estados nacionais. Tal necessidade tem sua relação com a cultura no sentido de que toda identidade se define em algo que lhe é exterior, um diferencial que se contrapões ao estrangeiro. Daí vem a crítica de autores do século XIX, em relação à cópia das idéias da metrópole, de uma cultura importada dos países centrais.

O fato de se buscar tal identidade de contraposição está associado a uma leitura de nossa posição enquanto Terceiro Mundo, de uma cultura distinta da européia. Mas dizer que somos diferentes não basta, há a necessidade de mostrar no que nos identificamos. A formação da cultura nacional correspondeu à reinterpretarão do popular pêlos grupos sociais junto à necessidade de construção político-ideológico do Estado Nacional brasileiro. Tal construção se configura na associação que a cultura tem com as relações de poder, a necessidade do bem comum ideológico para o desenvolvimento político unificado e centralizado, em que as concepções de cultura surgem associadas tanto ao progresso da sociedade quanto a novas formas de organização e dominação.

Já no Romantismo brasileiro existe o nacionalismo, tanto mediante a representação indianista (mas um índio idealizado com valores da civilização européia) quanto o romance sertanista (ou regionalista) que se opõe às influências européias mediante apresentação de paisagens, tipos e linguagens de diversas regiões, colocando-se dessa forma que o Brasil verdadeiro e puro seria o interiorano, imune às influências externas concebidas nas cidades. Mas nos fins do século XIX ocorre o declínio da hegemonia romântica e sua representação. O positivismo de Comte, o cientificismo, o darwinismo social e o evolucionismo de Spencer passar a reger influência sobre os autores nacionais, estes fazendo uma análise brasileira às luzes de uma interpretação de uma história natural e hierarquizada da humanidade. Procura-se o porquê do atraso do país à medida que a realidade nacional se diferencia da européia, um porquê com base nas teorias racistas e deterministas que afloravam com o positivismo e o evolucionismo.

Diante de tais perspectivas o meio e a raça interagindo entre si constituem-se como argumentos que procuram o entendimento da especificidade social nacional, como categorias do conhecimento que definiam o quadro interpretativo da realidade brasileira, esta sendo apreendida em termos deterministas (racial e geográfico). Tal particularidade nacional que se revela nesses elementos permite a distinção entre nacional e estrangeiro, o nacional não podendo ser desta forma uma cópia dos parâmetros centrais. Ser brasileiro significaria viver em país de clima e meio diferente do europeu e povoado por um povo distinto, esse fator interno definiriam a realidade brasileira.

Na problemática racial tornam-se corrente as afirmações que a sociedade brasileira se constituiu através da fusão das três raças, a raça branca numa posição superior na construção da civilização, e o índio e o negro como entraves no processo civilizatório. O problema seria como tratar a realidade brasileira diante da disparidade racial, tendo-se a necessidade de sublinhar o mestiço na medida que o meio e a formação racial brasileira são diferentes dos europeus. O mestiço caracteriza-se com defeitos e incapacidades morais e intelectuais (devido ao cruzamento de raças distintas), sua realidade é inferiorizada. Constituiu-se como ideal nacional (para a construção de um Estado desenvolvido) o processo de embranquecimento como meta, para serem eliminados os estigmas das raças inferiores.

Mas tal política de enbranquecimento (com a imigração) passou a caracterizar uma ausência de unidade nacional, e no início do século XX ocorreu a necessidade emergencial de um espírito nacionalista desvencilhado das teorias racistas (estas se tomaram obsoletas, com a realidade exigindo um outro tipo de interpretação) e ambientais, estas e aquelas em declínio com o positivismo.

O Brasil foi sofrendo grandes mudanças sociais com o processo de urbanização, industrialização e a modernização dependente. As relações de poder agrárias e tradicionais antes fragmentadas estavam dando espaço à modernização e relações político-econômico cada vez mais complexas, burocráticas e racionalizadas, diante da necessidade da consolidação do aparelho político ideológico de um Estado Nacional centralizado. Dessa forma era cada vez mais objetivada a constituição de uma identidade nacional como fator de dominação e influência ideológica nacional.

Já no Modernismo ocorre a aceitação de pátria tal qual ela é, da ridicularização dos pretendiam vê-la com olhos europeus. O nacionalismo fora cada vez mais exaltado e a revalorização do índio e valorização da mestiçagem (como aparece na obra Macunaíma, de Mário de Andrade). Nos anos 30, o conceito de raça trocara-se pelo de cultura, permitindo assim que a negatividade do mestiço se transformasse em positividade, o que permitira desenhar uma identidade nacional, com o mito das três raças tornando-se então plausível, a mestiçagem presa nas teorias racistas passara a ser reelaborada de maneira idealizada, celebrada no senso comum e nos eventos populares, de uma forma tal a encobrir as realidades de injustiça e preconceito expressas no cotidiano.

Para uma unidade cultural nacional fora necessário uma aproximação da identidade das elites com as identidades populares, anteriormente essas elites passaram a copiar as identidades e os modelos europeus e o popular era tido como inferior e as mesmas procuravam em si próprias uma distância do mesmo, passando a moldar como padrão o erudito europeu afastado da cultura popular. Ocorria o afastamento entre o erudito e o popular, proporcionando à formação da cultura popular suas variadas formas de representação de forma mais autêntica, autônoma e diversificadas, pois não estavam ligadas a um "padrão", ou modelo central que idealizava uma realidade de identidade nacional comum. Tal afastamento fazia com que a cultura popular era representada de forma mais diversificada, espontânea e autêntica, não subordinada ou moldada pela elite. Esta veio se aproximar da cultura popular no Estado Novo, para idealizar uma realidade nacional e assim encobrir a realidade de uma sociedade hierarquizada onde predominavam as desigualdades sociais e raciais e o preconceito. O samba assim passa a ser colocado e tido como símbolo e espaço de representação e integração cultural da elite com a cultura popular.

Mas tal idealização da identidade nacional servira para encobrir as relações cotidianas de preconceito e injustiça social, servira como base ideológica para a formulação do estado nacional no Estado Novo, para realçar o desenvolvimentismo nacionalista no período liberal-democrático ou para encobrir a opressão que calava as bases dos movimentos sociais durante o regime autoritário militar. Neste, a difusão e desenvolvimento da Indústria cultural nacional fora formulando as bases da propaganda nacionalista com a promoção dos meios de comunicação de massa, com a preocupação da manutenção da ordem nacional visando o desenvolvimento capitalista plutocrático que calava as bases com a repressão física às bases da contracultura e formulava uma alienação ideológica sobre as massas. Com o Estado Novo se dá da formulação e as bases para uma identidade nacional concreta, esta atingindo o seu desenvolvimento nos regimes posteriores (liberal-democrático e ditatorial militar) através da ideologia nacionalismo do bem comum e dos objetivos de modernização inerentes ao Estado capitalista, durante o século XX.

A questão nacional é trabalhada no contexto acadêmico e transplantada para o senso comum. O nosso modelo escolar trabalha com a valorização dos elementos e símbolos nacionais, os meios de comunicação de massa reproduzem a valorização dos símbolos, das crenças, dos eventos populares além do ideal de consumo capitalista que também exerce influência. Lembrar elementos nacionais brasileiros nos remete a valores culturais como o futebol, carnaval, música popular e concepções distintas de personalidade, que encontrara destaque entre outros na concepção da brasilianidade, dentre a idealização do nacional a uma cultura comum à uma nação bastante heterogênea, de pluralidade étnicas, raciais, culturais e sociais.

E preciso estabelecer na formação dos valores nacionais a existência de uma realidade social pluricultural, social e étnica, admitir e combater as desigualdades, injustiças, preconceitos e discriminações que se encontram presentes nos nossos valores sociais do cotidiano. Alimentai' a necessidade para o resgate de nossas matrizes orientadas para uma reprodução dos valores culturais em interação com o desenvolvimento global e tecnológico, e desenvolver uma educação voltada para a cidadania e minimização dos problemas sociais propiciando uma interação cultural entre os elementos que compõem nossa realidade.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FURTADO, Celso. O longo amanhecer: Reflexões sobre a formação do Brasil.
São Paulo: Paz e Terra.
LEITE, Dante Moreira. O caráter nacional brasileiro: história de uma ideologia. 5.ed. São Paulo: Ática, 1992.
MOURA, Faraco &. Literatura Brasileira. 15. ed. São Paulo: Ática, 1998
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.
SANTOS, José Luiz dos. O que é Cultura. 16. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996.