segunda-feira, agosto 14, 2006

Flávio Aires Câmara

Identidade Brasileira

Vós todos aqui presentes,
para mim sois todos presentes,próximos,
concidadãos pela natureza, talvez pela lei.
Pela natureza, o semelhante é parente do semelhante,
mas a lei, que tiraniza os homens,
impõe restrições à natureza.
Hípias
Mede-se a excelência de uma idéia pela oposição que ela provoca.
Hegel
 

 

A identidade brasileira foi construída a partir de bases teóricas "cientificas" determinista e biológicas, que estavam em vigor na Europa do século dezenove. Mesmo com a abolição dos negros no fim do mesmo século, essas concepções positivistas contribuíram para a desvalorização do negro, índio, mulato; pois, essas etnias passaram a ser considerados "as raças preguiçosas" e degeneradas; visto que eles eram biologicamente determinados fadados ao fracasso; o desenvolvimento do Brasil como nação estava comprometida.

Igualmente, a fusão dessas etnias com os europeus era símbolo de "impureza" biológica, daí a necessidade de mão de obra imigrante européia, que foram chamados de "raça pura" (arianismo) por grupos sociais que tinham a idéia de superioridade elevando em conta a seleção natural, tese defendida por Charles Darwin. Estes "purificadores" que vieram para entres varias qualificações a de trabalhar nas lavouras de café. Desse modo, para o momento histórico em vigor, os determinismos (climáticos, biológicos, raciais, sociais) serviram de instrumento legitimador no bloqueio da ascensão social da maioria da população. Com relação à degenerescência, legitimação e desenvolvimento nos diz o antropólogo Roberto Damatta o seguinte:

 

"Observo, então, nesta parte, como nosso sistema hierarquizado está plenamente de acordo com os determinismos que acabam por apresentar o todo com algo concreto, fornecendo um lugar para cada coisa e colocando, complementarmente, cada coisa em seu lugar (...) Perguntas que dizem respeito a uma confirmação cientifica da "preguiça do índio", "melancolia do negro", e a "cupidez" do branco lusitano, degredado e degradado. Tais seriam ainda hoje os fatores responsáveis, nesta visão tão errônea quanto popular, pelo nosso atraso econômico-social (...)".

 

 Ao fazermos uma retratação histórica, observemos fatos decorrentes no período da deposição das oligarquias mineiras e paulistas ao poder da republica em 1930. Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil. Nesse momento, o presidente então eleito implanta o Estado Novo e resolve modernizar o país juntamente com a elite, que via com preocupação a ausência de uma unidade nacional. Para tal empreitada, fazia-se necessário a construção de uma identidade nacional, na qual motivasse a nação para participar desse projeto modernizador.

Com isso, para "expurgar" as noções profético-positivistas do século dezenove, os intelectuais brasileiros, especialmente Gilberto Freyre, irá edificar a identidade nacional fundada na miscigenação das principais raças brasileiras (branco, índio e negro). A partir daí, as pessoas se sentirão brasileiros em vista da "harmonia" das principais matrizes étnicas; o que vai encobrir os conflitos de natureza étnica e até mesmo social, visto que a maioria dos extirpados da sociedade incluir os afros-descendentes. Essa teoria ficara conhecida como o mito das três raças, ou como o antropólogo Roberto Damatta prefere denominar: a fabula das três raças.

  No seu livro A Moderna Tradição Brasileira, o sociólogo Renato Ortiz, relata-nos que Getulio Vargas aprofundou ainda mais a questão da identidade nacional com o apoio da indústria cultural, pois como o território nacional era extenso e fragmentado culturalmte e de difícil difusão de idéias homogeneizadoras, o rádio foi um mecanismo fundamental para integrar as mentes brasileiras aos interesses políticos do Estado e da burguesia nacional em consonância com as multinacionais.

Para difundir o uso do rádio, o Estado cria leis que permitam o apoio da publicidade para o aperfeiçoamento das emissoras até então amadoras devido à falta de publico ouvinte, no qual, ao mesmo tempo em que consumisse os bens simbólicos da cultura de massa, o ouvinte estaria exposto à propaganda ideológica e identitaria do governo getulista. Daí, os empresários e o aparelho estatal compactuariam em sincronia: as multinacionais venderiam seus produtos dessa identidade imaginada e o governo teria o controle das massas a partir dessa noção.

 O grande problema é que muito se fez para construir uma identidade nacional. Com os pressupostos freyrianos, com o getulismo modernizado, e o status quo da periferia mantem-se, isso por que os efeitos dessas teorias só escurecem o que foi defendido pelos deterministas no século dezenove. Maria Alice Rezende Gonçalves faz a seguinte nota:

 

"Com o Estado novo essa valorização é exaltada com uma campanha de nacionalização, ocorre também a nacionalização do ensino. Essa exaltação tem êxito,pois acontece, então, a unidade lingüística e de identidade ao brasileiro. Ao mesmo tempo essa valorização encobre uma sociedade hierarquizada onde predominam as desigualdades raciais e sociais e o preconceito (...)".

 

Essa concepção de identidade nacional entra em crise ainda mais quando a condicionante globalização surge para questionar a certeza don que se supunha por identidade. O sociólogo jamaicano Stuart Hall, no livro A identidade cultural na pós-modernidade faz uma critica as identidades nacionais argumentando que elas estão desmoronando em vista da supressão do espaço-tempo, ou seja, a velocidade dos meios de comunicação, dos transportes tem feito com que o sujeito perca essa noção de enraizamento, pois ele pode esta em um lugar inóspito, todavia pode conectar-se com o reto do mundo através da internet, assim o sujeito fica descentrado, mostrando-nos a fragilidade das identidades, pois elas são imaginadas.

   A partir da reflexão esboçada, a nossa identidade nacional está solidificada em teorias deterministas que limitam e excluem as etnias. Como apoio para essa exclusão, o mito das três raças esconde a relação conflituosa entre as culturas, e serviu de unificação territorial para o Estado Novo, assim como a cultura de massa. As duas instancias interagiam mutuamente com o intuito de angariar benesses a partir da identidade nacional; de um lado, o Estado controlava as massas, de outro, a indústria cultural criava e vendia seus bens simbólicos.

Outro fator desmistificador das identidades é a globalização, uma vez que lançará luz ao debate das identidades com a noção da supressão do espaço tempo, das comunidades imaginadas, da construção histórica das identidades a partir de narrativas mitológicas que servirão a interesses elitistas e estatais. Com isso, as manutenções dos estamentos estarão garantidas, pois bloqueará qualquer reação efetiva por parte dos desfavorecidos, de modo que a naturalidade prevaleça em detrimento da percepção de que essas identidades são construídas históricas e socialmente.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

 

 

Damatta, Roberto. Relativizando; uma introdução à antropologia social. Rio de janeiro: Rocco, 1987.

Hall, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP & A Editora, 2002.

Ortiz, Renato. A Moderna Tradição Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 2001.

Gonçalves, Maria Alice Rezende. Brasil, meu Brasil brasileiro. Professora da faculdade de educação da UERJ.