quarta-feira, agosto 16, 2006

Claudio Roberto F. do Nascimento

IDENTIDADE NACIONAL BRASILEIRA           

A questão da identidade nacional brasileira deve partir de uma análise crítica baseada não apenas num fato natural, mas também como construções que se fundamentam num suporte físico – geográfico e em suas dimensões política e cultural.

A identidade é uma construção simbólica e imaginada, formada a partir da tessitura de um lugar para si e do reconhecimento de diferenças no Outro. O sujeito constrói-se sobre narrativas e discursos, nos limites sempre renovados e refeitos entre o "eu" e o "Outro". (Hall, Stuart 1999)

            A formação da sociedade brasileira tem como característica marcante uma estrutura rígida e estanque onde as classes sociais são diferenciadas, principalmente, em virtude da cor da pele. Porém nota-se que os fatores econômicos também têm grande importância na classificação racial.

"... as pessoas podem 'enegrecer' ou 'embranquecer' a partir da posição social e econômica que ocupam". (MUNANGA, Kabengele 1996, p.185)

A partir de tais perspectivas é possível uma abordagem mais apropriada sobre a hierarquização da sociedade brasileira, conseqüência da miscigenação das três raças (com o branco no topo da pirâmide). Miscigenação, citada por alguns autores como sendo 'harmoniosa', mais que esconde as desigualdades raciais e sociais e que defende uma suposta democracia racial plena no Brasil.

"A distância mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos. A ela de soma, porém, a discriminação que pesa sobre os negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros." (Darcy Ribeiro).

Na análise do processo histórico de formação da sociedade brasileira pode-se ver o desenvolvimento de uma estrutura social em cuja base imperava as relações escravistas de produção, que vão marcar profundamente toda a sociabilidade brasileira. Este quadro será herdado quando da emancipação política da Colônia, colocando o novo país na lista daqueles que conhecem dificuldades para afirmar sua identidade nacional (Ortiz, 1985).

No período de transição da monarquia para a república (e do trabalho escravo para o trabalho livre) é que a visão da identidade pelo espaço ganha certo destaque na representação simbólica do Brasil. A mudança da forma de governo recoloca o tema da unidade nacional e do ordenamento (ou reordenamento) do Estado. Nesse período são muitos os ensaios que tematizam a tarefa das elites - a construção do país -, questionando bastante "o povo de que dispomos para realizar tal tarefa".

As idéias sobre a formação de uma consciência nacional caminhavam junto com os interesses das elites. Nacionalismo e autoritarismo sempre estiveram juntos. Essas idéias espalharam-se pela sociedade brasileira através de associações, fundamentando movimentos políticos como o tenentismo e culturais como o modernismo. Nesse contexto está a Semana de Arte Moderna com a nítida preocupação de buscar o rompimento com todas as estruturas do passado.

Ainda, os livros didáticos vêm criar uma identidade, um tanto forjada, a respeito dos fundadores da cultura nacional brasileira. Apresentam os índios como nativos, os negros como escravos, os portugueses como descobridores e os imigrantes como marco de mudança nas relações de produção. Cristalizam uma "Imagem de Brasil", sugerem aspectos importantes na construção da identidade nacional e formam cidadãos ideais para o estado centralizado, neutralizando o poder das oligarquias regionais, formando o sentimento nacional brasileiro. Sentimento este que teria como fundamento a raça, a língua e a religião, e um território com uma única administração.

BIBLIOGRAFIA

FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Círculo do Livro S.A. (por cortesia) da Livraria José Olympio Editores: São Paulo, 1933

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 3.ed. Rio de Janeiro:DP&A 1999

MUNANGA, Kabengele. Mestiçagem e experiências interculturais no Brasil. In: SCHWARCZ, Lílian Moritz; REIS, Letícia V. de Sousa (org.) Negras imagens. São Paulo: Edusp, 1996.

ORTIZ, Renato. 1985. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo, Brasiliense.

RIBEIRO, Darcy.1975. Teoria do Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira