segunda-feira, agosto 14, 2006

Alessandro de Oliveira Lima

A formação da identidade nacional: da miscigenação ao “ser brasileiro”.

Para Darcy Ribeiro a construção de uma identidade nacional está ligada a uma compreensão a partir da análise histórica e a interação das três raças que aqui chegaram, primeiro o índio, a milhares de anos atrás, depois os portugueses a mais ou menos 500 anos, e os negros trazidos como escravos na época da colonização. A base desta construção de identidade segundo o autor, está com os portugueses, junto com o pensamento cristão de expansão do catolicismo e catequização dos índios. Para analisarmos as diferenças da matriz Lusitânia e o novo povo que estava sendo formado aqui, o autor aborda três fatores: ecológico, econômico e o plano étnico-cultural. Ecológico por estar em uma região nova, como maior extensão e uma paisagem praticamente virgem; econômica, que tem uma relação com a base na extração do pau-brasil e agro-exportadora da cana de açúcar , dos primeiros anos de colonização, e por último a diferença étnico-cultural, uma das mais importantes que trouxe uma transformação e unificação de costumes de índios, negros e europeu na formação do que é ser brasileiro. O autor vai apresentar aspectos de como era a vida dos nativos antes da chegada dos portugueses, que mesmo entrando em conflitos com as outras tribos, era uma vida de harmonia com a natureza e respeitos múltiplos. O poder de organização, de divisão de trabalho, as visões do significado da antropofagia, praticado por muitas tribos, como também onde estavam localizados os diferentes troncos lingüísticos, como por exemplo tupi no litoral , jê mais no centro, entre outros.

Apontando também, como foi este encontro com os portugueses, à sensação de espanto dos nativos, achando que os europeus eram pessoas enviadas por Deuses ou eram os próprios. Bem como, desde o encontro os nativos começaram a ser dizimado por doenças que foram trazidas pelos exploradores e para elas o índio não conheciam e não sabiam o seu tratamento por ser o primeiro contato. Com o passar do tempo os nativos foram percebendo que este novo povo que tinha abarcado em sua costa, não era Deus e sim exploradores que estavam atrás de riquezas, como foi possível verificar no texto que não era significativo para os índios, qual era a razão de buscar riqueza? Que noção é esta de riqueza? Depois deste encontro conturbado, teremos a fase da catequização, que é o começo da imposição da cultura européia nos índios e sua aculturação, e mesmo assimilando alguns costumes e ensinamentos dos nativos os jesuítas junto com os europeus promoveram um verdadeiro genocídio e etnocídio com os indígenas. E por fim nesta fase de começo de colonização teremos a chegada do negro, vindo como escravo e já submisso aos portugueses.

Mesmo o autor tendo um posicionamento de que os portugueses são à base da formação do povo brasileiro, e apontar a grande contribuição na forma como é contada a historiografia do Brasil, não desconsidera a vasta colaboração dos índios e negros, com seus costumes, língua, hábitos e ensinamentos unificados com os dos europeus, formando o brasileiro. È dessas considerações que chega ao conceito de uma “democracia racial”, que não é verdadeira, pois teremos um outro agravante herdado da nossa história de formação, que é a divisão de classes, e nos foi herdada do pensamento que os europeus são os dominadores e no seu pensamento a superioridade em relação aos outros povos é um fato que não podemos mudar. Além disso, são eles os grandes detentores das riquezas e das classes mais elevadas do nosso país restando para as outras parcelas da população a submissão.

Para Darcy Ribeiro, mesmo sendo o Brasil um país de grande extensão, e com uma vastidão de culturas e povos diferentes, com suas particularidades, não faz com que o ser brasileiro, perca sua essência, e tenha etnias diferentes aqui, que podemos por exemplo observar em outros países como Asiáticos, Europeus, Africanos, onde tem uma grande quantidade de várias etnias vivendo em conjunto e sempre entrando em conflitos, para manter os seus fundamentos étnicos. Os brasileiros neste ponto terão uma diferenciação importante por ter uma aparente unificação das culturas, mas não poderíamos falar em um respeito para com as varias particularidades e singularidades que existem em cada região, e estas têm em cada região uma influência sobre a formação da nossa identidade como brasileiro e incentivam estes povos a manterem suas tradições e tentar fugir um pouco desta imposição de todos os valores serem e virem do povo europeu. Com estes pensamentos abordados pelo autor, podemos analisar esta triste historia que é a formação de nossa identidade nacional, onde mesmo o povo, que tendo na sua essência um pensamento de mudanças, é sempre reprimido por esta máquina burocrática dos grandes latifundiários e empresários que infelizmente ainda comanda o nosso país.

Poderíamos falar em um quadro diferente no Brasil, com a própria análise que o autor aponta, que está relacionada com uma “reversão do poder”, onde os povos que sempre foram explorados, têm também, um pouco mais de representação, direitos e respeito, onde esta luta que sempre tivemos, desde os índios lutando por sua terra, o negro que lutou por sua alforria e agora luta por mais respeito, enfim, as representações e lutas dos movimentos sociais, não morram e a luta sempre tem que continuar.

Bibliografia:

Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro, A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.p.19-77.
Damatta, Roberto, Relativizando, uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco ,1991.p 59-85.
Athias, Renato. A noção de identidade étnica na antropologia brasileira –De Roquette Pinto a Roberto Cardoso de Oliveira-,Nanterre 1982 p.24-31.